SÉRIE METODOLOGIAS PARTICIPATIVAS / EXTENSÃO RURAL
6 de setembro de 2013 - 03:00
Articulador da Rede Temática Metodologias Participativas da
Ematerce, Engº Agrº José Roberto Ribeiro Vieira.
Resumo Histórico (A Evolução da Ater )
Nas décadas de 60 e 70, os enfoques de desenvolvimento rural respaldavam-se na transferência de tecnologias(difusionismo) e na ausência da participação dos beneficiários, tanto na elaboração quanto na execução dos projetos.
Com a mudança do foco para a Agricultura Familiar, em meados dos anos 60, a Ater(Assistência Técnica e Extensão Rural) passou a priorizar a participação dos agricultores, na elaboração e execução dos projetos, com o uso de METODOLOGIAS PARTICIPATIVAS, em que o papel do técnico não é mais o de convencer o agricultor, mas o de vencer, com ele, construindo juntos novas opções de procedimentos.
Informe 04 – A ESTRATÉGIA DE ATER PARA A AGRICULTURA FAMILIAR (continuação)
Fundamentos (O APOIO À ORGANIZAÇÃO E À GESTÃO DOS AGRICULTORES FAMILIARES)
Como já vimos, o papel educativo da Ater está apoiado em 4 grandes vertentes, quais sejam: o apoio à organização e à gestão dos agricultores; a apropriação de tecnologias pelos agricultores,no âmbito econômico, social e ambiental;a facilitação do acesso às políticas públicas e a integração com a pesquisa, visando encontrar soluções para os problemas detectados pelos agricultores e extensionistas.
No que diz respeito à atividade APOIO À ORGANIZAÇÃO E À GESTÃO DOS AGRICULTORES FAMILIARES, segundo Polan Lacki, a Ater tem que proporcionar aos agricultores, os conhecimentos necessários para que eles mesmos possam resolver os seus problemas, solução de maior eficácia e menor custo e o único caminho possível, para que o desenvolvimento rural sustentável passe a ser uma possibilidade concreta.
Os agricultores familiares nordestinos estão , em sua grande maioria, desmotivados e acomodados, necessitando de soluções de verdade e que sejam perduráveis no tempo.
A Ater é o único serviço detentor de “know how” com condições de quebrar essa “dormência”, tomando, inicialmente, como parceiros, agricultores mais receptivos, lúcidos e progressistas, cansados das ações difusionistas e conscientes de que eles , se convenientemente assessorados, podem encontrar as soluções adequadas para seus reais problemas.
Prestando um atendimento sistematizado(vide informe 03 de 21/08/2013), a Ater estabelecerá um processo recíproco de interação entre os extensionistas e os grupos de agricultores familiares assitidos.
Estes agricultores, fugindo da retórica paternalista, devem praticar uma agricultura alternativa, com insumos produzidos, na própria comunidade, tomando em suas próprias mãos, com o apoio da Ater, a correção das ineficiências de suas explorações , constituindo referência para os demais.
Deverão aumentar ainda seus rendimentos, por unidade de terra e de animal, diversificar a produção e reduzir perdas, durante e depois da colheita, melhorar a qualidade dos seus produtos e agregar-lhes valor, racionalizando a administração de suas propriedades, corrigindo os erros na aquisição dos insumos e na comercialização dos excedentes.
Vejamos,a seguir, 10 sugestões de Polan Lacki para os agricultores familiares:
1)O agricultor,com o assessoramento do extensionista, deve identificar, evitar, corrigir e/ou eliminar as ineficiências da sua exploração na forma como produz, como administra suas propriedades e como comercializa suas colheitas. Evitar, corrigir ou eliminar estas ineficiências custa muito pouco, mas tem uma surpreendente eficácia no incremento da renda das famílias rurais.
2) Iniciar a “eficientização” produtiva com tecnologias de custo mínimo. Com a finalidade de que todos os agricultores, especialmente os mais pobres, possam tornar-se mais eficientes, a introdução de novas tecnologias deverá ser realizada, de forma gradual, começando com as de menor custo e fácil adoção. Depois de serem corretamente adotadas, aumentarão os rendimentos por hectare e por animal. Através desta gradualidade, obterão/extrairão das suas propriedades – e não do banco – o dinheiro necessário, para adquirir os insumos de maior custo de que necessitarão utilizar nas etapas mais avançadas de tecnificação.
3) Não plantar mais hectares que aqueles que podem cultivar com tecnologias, que permitam obter altos rendimentos. Como regra geral, é mais conveniente cultivar, de maneira correta, um hectare de milho e colher nele 5 toneladas do que cultivar incorretamente dois hectares e colher 3 toneladas em cada um deles. Não criar mais vacas que aquelas que podem alimentar, adequadamente, durante todo o ano, a fim de que elas possam produzir mais leite e mais bezerros. É melhor ter uma vaca, geneticamente melhorada, sadia e bem alimentada que produza 10 litros de leite por dia que ter 5 vacas famintas, com mastite e cheias de endo e ectoparasitas, produzindo 3 litros cada uma.
4) Fugir das monoculturas e diversificar a produção agrícola e pecuária, para tornarem-se menos vulneráveis aos riscos de clima, mercado, pragas e doenças. Idem para gerar alimentos diversificados (para a família e para os animais) durante todo o ano. Quem obtém apenas uma ou duas colheitas, ao ano, evidentemente será muito mais dependente do crédito rural. Então, em vez de endividar-se desnecessariamente e pagar juros aos bancos, realizar uma eficiente diversificação produtiva, para que a propriedade gere renda mais abundante e mais frequente durante todo o ano. Os produtores de bovinos, cabras e ovelhas deverão, em primeiríssimo lugar, melhorar a produtividade e a qualidade das pastagens, para tornarem-se menos dependentes do uso de rações balanceadas que normalmente são muito caras. Os produtores de gado leiteiro, suínos e aves deverão produzir nas suas propriedades os ingredientes (milho ou sorgo, mandioca ou batata doce, etc.) e transformá-los em rações balanceadas de baixíssimo custo. Se produz estes ingredientes, jamais vendê-los ao primeiro intermediário que apareça na propriedade; transformar esses ingredientes em rações e fornecer às suas próprias vacas leiteiras, suínos e aves. Estes animais, ao receberem uma alimentação de qualidade e baixo custo, retribuirão a gentileza, devolvendo leite, carne e ovos de qualidade, em maior quantidade, e produzidos com custos unitários mais baixos.
5) Abandonar, de uma vez por todas, o individualismo e juntar-se-se aos vizinhos confiáveis para adquirir os insumos e para comercializar as colheitas com menor intermediação.
Os agricultores pagam preços desnecessariamente altos pelos insumos, porque os adquirem de forma individual, em pequenas quantidades, do último elo de uma longa cadeia de intermediação e com alto valor agregado. As rações balanceadas, que compram do último intermediário, provavelmente são fabricadas por uma grande empresa, com ingredientes que saíram das suas propriedades;
Os agricultores, quando comercializam suas colheitas, fazem exatamente o contrário e, por esta razão, recebem valores desnecessariamente baixos, porque as vendem ao primeiro elo da cadeia de intermediação, comercializando no atacado e sem nenhum valor agregado. O individualismo tornou os produtores extremamente frágeis e os conduziu à seguinte humilhação: quando compram os insumos perguntam quanto custa. Mas quando se convertem em vendedores de suas colheitas, continuam perguntando quanto me pagam. Isso significa que, por causa desse nefasto individualismo, nunca serão formadores de preços. Observem que, dentro das cadeias agroalimentares, os agricultores são os principais geradores das riquezas, são os que mais trabalham e os que correm os maiores riscos do agronegócio, mas cometem a ingenuidade e o grave erro de não apropriar-se destas riquezas.
]6)Os agricultores devem juntar-se aos seus vizinhos, para adquirir e utilizar de maneira conjunta as máquinas e implementos de alto custo, que economicamente não se justifica possuí-los de forma individual. Muitos pequenos agricultores endividam-se para adquirir máquinas de forma individual e as utilizam durante 15 dias ao ano, deixando-as ociosas os outros 350 dias. A título de exemplo, é preferível que um grupo de 15 pequenos produtores possua, para uso comum, um bom trator, uma boa semeadora, uma boa colheitadeira e um bom pulverizador. Infelizmente, isto não ocorre porque cada agricultor insiste em possuir maquinaria individual e exclusiva. Em muitos casos, o dinheiro que gastam para possuir maquinaria individual foi o dinheiro que, posteriormente, faltou, para comprar os insumos, muito mais imprescindíveis para aumentar a produtividade na Agricultura e na Pecuária (sementes melhoradas, fertilizantes, inoculantes, pesticidas, melhoramento das pastagens, conservação de forragens, para os períodos de escassez, sêmen de melhor qualidade, vermífugos, sais minerais, etc).
7) Realizar, também, de forma gradual, a reconversão produtiva, substituindo os produtos que consomem os pobres por outros que são consumidos pelos ricos. É muito difícil que um agricultor, com 5 ou 10 hectares de terra, produzindo (para o mercado) milho, mandioca, batata, batata doce, abóbora, feijão ou arroz, possa sobreviver economicamente da Agricultura. Estes produtos, de baixa densidade econômica, que são consumidos, principalmente pelos pobres, deverão ser substituídos, de forma prudente e gradual, por outros produtos que são consumidos pelos ricos, porque eles geram mais renda por hectare.
8) Não vender a produção, sem melhorar sua apresentação e aparência. Os agricultores mesmos poderão incorporar valor aos seus produtos primários, começando por aquelas medidas que, devido a sua facilidade de execução e baixo custo, podem ser realizadas pelos seus próprios familiares, como por exemplo: limpar, classificar, fracionar e empacotar em sacos plásticos grãos de feijão, ervilhas ou lentilhas; lavar raízes e tubérculos, classificá-los por tamanho, aparência e fracioná-los em pequenas quantidades, colocar alface ou caju em bandejas individuais de isopor e cobri-las com películas transparentes, ou seja, incorporar valor às suas colheitas, para aumentar os lucros.
9) De forma gradual, eliminar alguns elos de intermediação. Se atualmente vendem ao primeiro elo, na próxima vez, formem um grupo e comercializem com o segundo elo… e assim sucessivamente, buscando aproximar-se cada vez mais dos consumidores finais.
10) No entanto, atenção: antes de agregar valor às colheitas e melhorar sua comercialização, não se esqueçam de produzi-las com menores custos e com qualidade. A incorporação de valor agregado e uma melhor comercialização não poderão fazer milagres. As novas medidas eficientizadoras, recém- sugeridas, produzirão os efeitos esperados, se melhorarem a qualidade de suas matérias- primas e se reduzirem seus custos por kg produzido. Será muito difícil, para não dizer impossível, que um leite sem qualidade (sujo, com baixa porcentagem de proteína e gordura, com alta contagem de células somáticas e com resíduos de antibióticos) e produzido, com alto custo por litro, possa ser transformado em queijo, manteiga ou iogurte de qualidade e chegar aos mercados com preços competitivos.
No caso dos agricultores que não possuem terras, a Ater deve capacitá-los, como mão de obra especializada ou assisti-los, por intermédio do PBSM (Programa Brasil Sem Miséria), que apresenta estratégias específicas, para combater a pobreza rural.
O importante e saber que uma Ater de qualidade implica melhor aplicação dos recursos das políticas públicas e melhoria da organização e da qualidade de vida dos agricultores familiares.
E os extensionistas estão aí, para isso.
José Roberto R.Vieira
Engenheiro Agrônomo da Ematerce
Articulador da Rede de Metodologias Participativas
doc. série metodologias participativas 04
06-09-2013